sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Ipê desfolhado.

Ipê desfolhado.
Mosaico de sombra e luz
No chão cor-de-rosa.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Um rub'ai de Omar Khayyam

Omar Khayyam provavelmente é o poeta persa mais conhecido aqui no ocidente. Sua fama entre nós vem da tradução feita por Edward Fitzgerald no século XIX, que até hoje ainda é a tradução referência da obra de Khayyam para o inglês. Naturalmente não sei persa e minha tradução abaixo não é do original, mas da tradução de Fitzgerald. Ou seja, é a tradução de uma tradução. Na verdade, cheguei a traduzir três rub'ais, mas os outros não considero boas traduções. No entanto todas as minhas traduções e muitas outras podem ser encontradas nesse post no blog do Matheus "Mavericco". Pois bem, a tradução.

Igualmente aos que aprontam-se pro HOJE
E aos que têm olhos postos no AMANHÃ,
"Tolos!", clama o muezim na negra torre,
"Onde buscam o Prêmio a busca é vã!"

***

Alike for those who for TO-DAY prepare,
And those that after a TO-MORROW stare,
A Muezzin from the Tower of Darkness cries
"Fools! your Reward is neither Here nor There."

Omar Khayyam
Trad: Edward Fitzgerald


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

They say that "Time assuages" -

Emily Dickinson é uma de minhas poetas favorita. Tem vários poemas dela que gostaria de traduzir (talvez um dia), mas há particularidades nos poemas dela que fazem a tarefa difícil de ser feita com qualidade. Fora isso, eu preciso reencontrar os poemas que gostaria de traduzir e não estou com meus livros com os poemas dela por perto (considerando que são mais de 1000 poemas e muitos deles bons, é complicado achar um em particular, mesmo na internet, se não souber de cor algum verso). Enfim, abaixo está uma (tentativa de) tradução que já faz algum tempo que fiz.

Eles dizem "o Tempo cura" -
Tempo nunca ousou tal feito -
Uma dor verdadeira enrijece
Como Tendão, envelhecendo -

Tempo é um Teste de Martírio -
Não Remédio, em verdade -
Se disso algo se prova, também prova
Que não havia Maldade -

***

They say that "Time assuages" -
Time never did assuage -
An actual suffering strengthens
As Sinews do, with age -

Time is a Test of Trouble -
But not a Remedy -
If such it prove, it prove too
There was no Malady -

Emily Dickinson

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

sábado, 13 de agosto de 2016

Sol sobre o canteiro.

Sol sobre o canteiro.
Entre finos caules brilham
As teias de aranha.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

sábado, 6 de agosto de 2016

manhã pela janela

manhã pela janela

carros buzinas
a sirene de ambulância
sol nas mãos geladas

em qual rua paralela
você foi morar

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Sarajevo

Sarajevo, o que faz de ti assim tão triste?
Dize-me, consumiu o fogo as tuas casas?
Ou a chuva engoliu sem trégua as tuas ruas?
Ou a peste roubou de ti a tua graça?

Aos poucos, Sarajevo entrega uma resposta:

"Tivesse o fogo em mim por tudo se alastrado,
Minhas cortes, quais sóis, tão logo se ergueriam.
Tivesse a chuva feito as ruas serem rios,
Os mercados um fresco e novo ar teriam.
Mas a peste tem posto em mim a mão sombria,
A mão sombria tanto em jovens como velhos,
E todos a que amei, num toque ela me tira."

Essa é uma canção antiga da Sérvia. A tradução foi  feita a partir da de R. W. Seton-Watson para o inglês (abaixo). O autor do original provavelmente é anônimo (realmente não encontrei nenhuma pista).

Sarajevo

Sarajevo, whence comes thy gloom?
Tell me, has fire consumed thee?
Or has the flood engulfed thy streets?
Or has the plague laid hold on thee?"

Softly Sarajevo gives answer:

"Had fire consumed me so sore,
My shining courts would rise again.
Had the fierce flood engulfed my streets,
My markets would be cleansed and fresh.
But plague has laid her murderous hand,
Her murderous hand on young and old,
And those I love, has torn apart."

segunda-feira, 25 de julho de 2016

domingo, 24 de julho de 2016

O Novo Colosso

No pedestal da estátua da liberdade existe um belo soneto escrito por Emma Lazarus. Faz muito tempo que queria traduzir ele, mas é o diabo traduzir esse soneto e não conhecia nenhuma tradução que preservasse a forma de soneto (agora sei a de um amigo, Henrique Gomes). Minha tradução trai as palavras, mas tenta salvar o poema, então não tem correspondência direta em vários pontos.

O Novo Colosso


Não como a estátua audaz de grega fama,
Com pernas entre terras estendidas;
O nosso portão d'água se confia
À dama poderosa cuja chama
Altívola é farol e que se aclama
A Mãe dos Exilados; à que inspira,
Co'a tocha erguida, vasta boas vindas
E ao porto, deste irmão, lança esperança.

"Terra ancestral, retenha seu orgulho!"
Diz suavemente. "Dê-me seus cansados,
Suas massas sedentas de ar puro,
Miseráveis nas costas entulhados.
Entregue-os para mim, os moribundos,
Minha luz mostrará o portão dourado!"

_____

The New Colossus

Not like the brazen giant of Greek fame,
With conquering limbs astride from land to land;
Here at our sea-washed, sunset gates shall stand
A mighty woman with a torch, whose flame
Is the imprisoned lightning, and her name
Mother of Exiles. From her beacon-hand
Glows world-wide welcome; her mild eyes command
The air-bridged harbor that twin cities frame.

"Keep, ancient lands, your storied pomp!" cries she
With silent lips. "Give me your tired, your poor,
Your huddled masses yearning to breathe free,
The wretched refuse of your teeming shore.
Send these, the homeless, tempest-tost to me,
I lift my lamp beside the golden door!"

Emma Lazarus

quinta-feira, 21 de julho de 2016

esvazia o amanhecer

esvazia o amanhecer
numa poça de sombra
alcalina reflete outra sombra
que evapora e desmancha
o longo tecido celeste
difuso feito plúmbea
flama expande pelos poros
estreitos da matéria si
lente o espaço retorcido
desaba sobre a cama

quinta-feira, 14 de julho de 2016

l(a leaf falls)oneliness


Faz tempo que gostaria de fazer a tradução desse poema de e.e. cummings. Não só é meu poema favorito dele como também é dos meus favoritos entre todos. Não vou discorrer muito sobre minhas escolhas na tradução. Basicamente minha linha mestra foi a de tentar preservar o aspecto visual do original assim como detalhes essenciais como o "one" (que se tornou "so" ou "só") e o seguinte l. Embora i não seja o melhor substituto para l ao tentar parecer o numeral 1, ele ainda pode parecer o 1 com um pingo. Anyway. Fora isso, há a seqüência l-l-f-f "caindo" (ou até mesmo a-e-a-a) que tentei emular com a seqüência c-a-e-a. Tem mais detalhes, como a escolha de "isolamento" ao invés de soluções mais óbvias como "solidão" ou "solitude", mas é melhor parar por aqui.

domingo, 10 de julho de 2016

Linha do horizonte.

Linha do horizonte.
Velas brancas se equilibram
Entre o par de azuis.

domingo, 3 de julho de 2016

morno e distante

morno e distante
o sol desmancha no mar

e brinca a criança
na beira da praia
faz castelos na areia
tem castelos no ar

morno e distante
o sol desmancha no mar

é tarde escurece
uma voz tem seu nome
e dissolve no vento

é tarde escurece

ondas refluem
avançam recuam
ruínas derretem
e escorrem na face

domingo, 26 de junho de 2016

destilação

além do ser agora além do tempo
no rijo batimento dos relógios
além dos numerais além dos sím
bolos além do raciocínio lógico
tombado sobre a cama além do espaço
escuro e sua fria geometria
além duma distância irreparável

serena simples cândida e risonha
uma criança brinca enquanto sonha

segunda-feira, 6 de junho de 2016

segunda-feira, 30 de maio de 2016

ruí

ruí
     na(musgo
           sobre ped.ras)
     em si
                      lêncio

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Um poema é superfície marítima

Um poema é superfície marítima
Onde palavras flutuam feito espuma
Vagando sobre as ondas,
Branca perante o sol.
Mas não são ondas poesia
E também não está na espuma;
Encontra-se além, abaixo, ao fundo,
Onde nunca chegam
Os clarões solares da linguagem.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Essa caixinha de música

Essa caixinha de música,
O que faço com ela?

O que faço com essa
Caixinha de música?

A música não toca.
A bailarina se foi.

O que faço com ela?
O que resta sem ela?

segunda-feira, 2 de maio de 2016

beber o tempo em goles comedidos

beber o tempo em goles comedidos
assim como se bebe um vinho caro
já quase que vinagre pelo fato
somente pelo fato de ser vinho
muito caro pra ser jogado fora
até se embebedar até sentir
um pouco do prazer que o vício traz
sentir a perda azeda um pouco mais
serena a cada gole como vír
gula no fim da folha feito espora
no lombo do cavalo feito chuva
correndo na calçada como o vento
corre solto em corrente feito vinho
descendo na garganta como o tempo

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Versos são fáceis

Versos são fáceis,
Difícil é a poesia;
Difícil é que as palavras
Transbordem sobre as outras
E escrevam sentidos
Sem vocábulos;
Difícil é despertar
No mais cético dos homens
Alguma crença
No sublime;
Difícil, muito difícil,
É fazer valer a pena
Serem lidos
E relidos.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

lá vem a fera!

lá vem a fera!
lá vem ela!
lá vem a           selvagem
                    que dilacera

lá vem a fera!
lá vem ela!
lá vem a            saudade
                que tenho dela

segunda-feira, 28 de março de 2016

Fim do Mundo

Escutei os clarins do fim do mundo
E foi como fanfarra dissonante.
Os quatro cavaleiros que desceram
Pareciam ser quatro Dom Quixotes.
O céu tombou, mas foi como se fosse
Um cenário mal feito preso em cordas
Velhas demais pra suportar o peso.

Ainda peregrina o fogo eleito
Entre as pautas dum solo de fagote.

terça-feira, 22 de março de 2016

baniram meus sonhos!

baniram meus sonhos!
baniram meus sonhos
da existência!

mas por quê?
                         por quê?
que crime cometeram?

segunda-feira, 14 de março de 2016

Entende este silêncio que nos cerca?;

Entende este silêncio que nos cerca?;
O linguajar austero das ausências?;
O cício que tremula a reticência
Entre duas lembranças incompletas?;
Aquilo que se cala na cadência
Do mundo quando as coisas ficam velhas?
Entende este silêncio que nos cerca?

Silêncio que nos cerca, de emboscada,
Como a alcateia cerca a sua caça.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Janela

Quando a noite é muito escura
- De faltar até a Lua -

Na janela do meu quarto
Eu me vejo emoldurado.

Mas, olhando mais atento
Minha face nesse espelho,

Eu me vejo refletido
Mais no escuro que no vidro.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Aurora

O dia começa
E posso ver no horizonte
O Sol levantando.

Alguns passarinhos despertam
E cantam.

Algumas pessoas despertam
E se espantam.
(Perderam a hora.)

Algumas nuvens trafegam
Nos tons de azul
Como querendo
Fugir da luz.

Mas nisso tudo
Tem algo estranho;
Tem algo amargo.

Alguma tristeza
Também despertou.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Três haikais

O vento desenha
Sobre o mato abandonado
As ondas do mar.

***

Despenca uma jaca.
O macaquinho se joga
No dorso da mãe.

***

Vísceras de peixe
Arremessadas no mar.
Gaivotas em festa.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Consegue escutar

Consegue escutar
A triste agonia
De cada segundo
Deixando o presente?;

Os tiros do Tempo,
Em marcha constante,
No meio da testa
De cada momento?;

As horas tombarem,
Sangrando e morrendo,
E nós, dentro delas,
Morrendo também?

domingo, 7 de fevereiro de 2016

está chegando como corte inqui

está chegando como corte inqui
sidora está chegando pela porta
entreaberta dos fundos da memória
um fantasma vestido com cetim
rasgado como sempre há de vir
no limbo de granito destas horas
vem sempre rastejando como co
bra gigante tentando me engolir
com sombras abrasadas pelo san
gue invisível que jorra desta falha
aberta relembrando que não tem
mais nada o que fazer está chegan
do como corte inquisidora está
chegando com a culpa que não tenho

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Uma sombra de lembrança

Uma sombra de lembrança
Acabei de ver
Passar pela memória.

Não sei qual era
(Elas são tantas!)
- Não vi seu rosto.

Mas reconheço muito bem
A tristeza que senti.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Nenhuma interjeição é verdadeira.

Nenhuma interjeição é verdadeira.
Nenhum pranto, nem sangue (mas que drama!)
Jamais se derramou sobre o papel.
Nem mesmo é de sentir que se produzem
Os versos que despertam sentimentos.
Também não é de súbito lampejo
Que nasce qualquer coisa que se leia.

Os versos sempre são premeditados
E escritos brutalmente a sangue frio.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Um soneto de e.e. cummings: Why must itself...

Aqui está uma tradução minha de um dos sonetos de e.e. cummings (talvez o autor que conseguiu aproveitar com maior êxito essa forma fixa no século XX). Talvez numa reedição dessa postagem eu explique minhas opções de tradução, mas deixo por enquanto apenas a tradução em si.

***

Por que tem que haver em cada duma praça

ânus posto algum entre aspas monumento
provando que herói é igual qualquer babaca
que não teve peito pra responder "não"?

quem sabe os entre aspas cidadãos podiam
esquecer(errar é humano;perdoar,di
vino)que se o entre aspas estado disser
"mate" matar é um ato de amor cristão.

"Nada",em 1944 D C

"pode contrapor o argumento de ne
cessidade militar"(generalíssimo
e)e o  eco responde "não existe apelo

contra a razão"(freud)a conta é sua ainda
que não queira. A liberdade não é linda?

***

Why must itself up every of a park

anus stick some quote statue unquote to
prove that a hero equals any jerk
who was afraid to dare to answer "no"?

quote citizens unquote might otherwise
forget(to err is human;to forgive
divine)that if the quote state unquote says
"kill" killing is an act of christian love

"Nothing" in 1944 AD

"can stand against the argument of mil
itary necessity"(generalissimo e)
and echo answers "there is no appeal

from reason"(freud)you pays your money and
you doesn't take your choice. Ain't freedom grand

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

reminiscências

não tenho pena que cante
ou lábio que escreva
a convulsão ultracaótica
a dinâmica sem princípios
de meus finados sentimentos
ressurgindo em nova forma
como sombra em novo ângulo
de um mesmo objeto
perdido na memória
sem nunca ser visto
novamente

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

breve nota para fins introdutórios

Cá está meu blog. Como já alerta o subtítulo, vou postar meus poemas e traduções nele (e talvez algo de física, mas não faço promessas). Começo meu blog sem saber com que frequência conseguirei atualizá-lo. Nem mesmo faço previsões quanto a se vai durar (mas ao menos foi iniciado). Provavelmente a frequência será irregular. No entanto farei o possível para não ser exageradamente irregular.

Ah, sim. O título do blog é um verso de Fernando Pessoa (mais especificamente, de Álvaro de Campos), que é o autor de alguns dos meus poemas favoritos (fora os meus, naturalmente).